Privilégio ou Coragem?

março 28, 2012

O privilégio

Ir de bicicleta pro trabalho traz umas histórias curiosas… Outro dia chego no trabalho e sou recebido no bicicletário do trabalho por um novo segurança. Antes mesmo de um bom dia ele me diz apontando pra minha bike: “esse é o melhor veículo pra São Paulo, hein?!” Daí puxamos maior papo, ele praticamente fez um monólogo de que só não vem de bicicleta porque mora muito longe, e que o metrô naquele dia tava todo parado, e o trânsito pior ainda. Me mostrou até um vídeo no celular assustador do tumulto que aconteceu no metrô!

Saí de lá intrigado com o papo do segurança. Em nenhum momento ele destacou que bicicleta é perigoso em São Paulo, que eu deveria tomar cuidado com assaltos, sequestros e sei lá qual outra modalidade do tipo, e que deveria repensar o uso da bicicleta. Nesses dias é raro sair de um papo novo sem ter que mostrar os argumentos que estamos cansados de falar todos os dias, que existe uma lei que dá o direito de andar de bicicleta na rua, de que capacete não é obrigatório, de que ciclista tem que ocupar a faixa, e que existem vias que não só as marginais (ô nome sugestivo, hein?) e as 23 de maio’s… Nada disso incomodou o segurança, apenas o entendimento de que BICICLETA = LIBERDADE = PRIVILÉGIO!

A coragem

Subo para o escritório e sou recebido com bom dias e no meio disso uma pergunta de um funcionário de cargo alto: “Você veio de bike hoje??????” (e bota interrogação nessa pergunta!). Naturalmente disse que sim. Na sequência vem as perguntas dos ‘mas…’. Mas não é perigoso? Mas e na chuva? Mas e a noite? Mas e o trânsito? Como a língua tá calejada com tantos argumentos, já tava pedindo truco, mas aí vem a frase que parece que a pessoa ignorou tudo o que você falou: “você é muito corajoso…”. O que responder depois disso? Parei o papo e segui em diante com o trabalho.

 

Com a sequência dos episódios que tive nesse dia sai com uma reflexão que estou carregando até hoje: por que o segurança me entendeu sem eu ter que falar um “a” e o executivo bem-sucedido não me entendeu depois de tantos argumentos? No fim, a melhor conclusão que tiro disso tudo é que você faz a cidade que você quiser. Se quiser ter medo e viver nas bolhas da vida, boa sorte. Eu sigo em frente de peito estufado pensando: “como eu sou privilegiado nessa paulicéia desvairada!”

 

E aí, qual a liberdade que você quer?