Algum problema?

abril 16, 2012

Essa semana foi bem atípica. Daquelas que a minha bicicleta ficou encostada em casa quase todos os dias. Como estava em dias que eu tinha que circular por pontos muito distantes da cidade, resolvi fazer tudo de transporte público. No começo foi tudo bastante eficiente, devo assumir. Andar de metrô em São Paulo fora dos horários de pico é uma delícia. Até que fui pega pela hora do rush!

Eram 18h15 e eu entro na estação Santa Cecília. A fila para passar a catraca chegava na escada. Acho que levei uns 15 minutos para conseguir entrar na estação. E o pior nem era isso. O trem já vinha lotado. Ninguém saia de dentro, ninguém de fora conseguia entrar e a plataforma só ia enchendo. Eu ficava imaginando o perigo que seria alguém cair da plataforma com toda aquela movimentação de pessoas chegando e ninguém conseguindo entrar no trem. Resumindo: era muito humilhante.

Como eu não estou acostumada com esse tipo de situação (graças a minha bike!), desisti. Me enfiei no caminho oposto e sai da estação. Sim, joguei R$3 fora, mas não há dinheiro que pague sentir o ventinho lá de fora no rosto novamente.

Resolvi seguir andando até a Avenida Angélica para pegar um ônibus. Um quarteirão para frente, uma pedestre e uma motorista brigavam na faixa. A motorista passou no vermelho e quase acertou a pedestre, que a xingou, que revidou e ainda ameaçou sair do carro para bater nela! “OI?!” A mulher quase mata a pedestre e ainda se sente ofendida? Mais um episódio deprimente na minha tentativa de voltar para casa.

Já na Angélica, a caminho do ponto do ônibus, a cena para acabar de vez com o meu dia: um ônibus atropela um pedestre. Que cai no chão bem machucado. Consciente, mas visivelmente com alguma partes do corpo fraturadas.

Foi a gota d’água. A melhor opção foi seguir a pé mesmo, andando até o cansaço pedir para eu parar e pegar um ônibus já quase no final da Angélica, perto da Dr. Arnaldo. Voltei para a casa mal e pensativa. Afinal de contas: qual é o problema dessa cidade?


Bike no Metrô – um triste episódio de constrangimento

abril 3, 2012

Sábado passado me ocorreu um episódio um tanto quanto paradoxal… Acontece que estavamos voltando de uma ação linda para incentivar crianças a usarem a bicicleta, lá perto do CEU de Heliópolis, no evento de lançamento do programa “Escolas de Bicicleta”.  Foi tudo incrível, lindo, perfeito.

Saimos de lá, junto com uns amigos, pedalando com um sorriso estampado na cara em direção à estação do metrô Sacomã, onde fariamos um intermodal básico para chegar até nossas respectivas casas. Como tinhamos levado um monte de materiais para o evento na bike, estavamos bem carregados e sem condições para levar a bike na escada fixa do metrô. Já estavamos ciente da liberação da escada rolante para subir e também da proibição de usá-la para descer…

Chegamos na estação e de cara uma escada subterrânea tão enorme que mal conseguiamos ver o fim dela! Com o peso que estavamos, não tinha viabilidade humana de carregá-las ali. Isentos de opção, pegamos a escada rolante para descer. Até aí tudo tranquilo, ninguém chamou nossa atenção.

Entramos no metrô e lá vem mais escadas pra descer. No meio de duas escadas fixas tinha um elevador abandonado (ficamos ali uns bons 2 minutos e ninguém apareceu!). Analisamos as escadas fixas e novamente concluímos que com o peso que estavamos (e com as damas também cansadas), não rolava. Chamamos o elevador e a primeira bike desceu (não cabia mais que uma). No meio tempo eu encarei a escada fixa, que era pequena, mas muito sofrida. Deu pra descer com leves marcas na mão…

Quando meu amigo saiu do elevador um funcionário do Metrô desce correndo e começa a gritar conosco. Basicamente ele queria dizer que existia um regulamento e que nós deveriamos respeitar. Ele poderia ter dito assim, sem grandes alardes, mas fez questão de fazer isso em alto e bom tom, insinuando que eramos uns fora da lei mal educados, o que, obviamente, chamou a atenção de todas as pessoas que estavam na plataforma. Cena constrangedora! Não tive escolha se não mentir que meu amigo tinha problema nas costas. Tive que subir o tom e perder toda a paciência e alegria que contive no meu dia para curar a síndrome do pequeno poder daquele rapaz.

Ao ver que a discussão tinha perdido a razão, virei as costas e fui embora, indignado com a atitude daquele funcionário. E o que me deixou mais indignado é que em momento algum eu vi um comunicado no Metrô dizendo “Ciclista vá por aqui”, ou ainda “Ciclista está proibido de usar escada rolante e elevador”! Ou seja, tinha que vir da minha livre e espontânea consciência imaginar que existia tal regulamento. Pensei nas centenas de pessoas que já usaram a bike no metrô e devem ter passado por situações parecidas sem conhecer regra nenhuma.

Curioso esta instituição não pensar nesses detalhes, mas ter estancado em todas as entradas das estações uma placa a la greenwash: “Sua bicicleta é bem-vinda”. Será que é mesmo?

P.S.: Obviamente essa história já está a caminho da Ouvidoria do Metrô. Vamos ver no que que dá… Aguardem novidades nos próximos capítulos!


A vida e a morte das vias expressas

abril 2, 2012

Papo meio nerd, mas muito importante!

Acaba de sair um estudo de duas organizações de relevância no tema mobilidade (Embarq e ITDP) chamado “THE LIFE AND DEATH OF URBAN HIGHWAYS” (A vida e a morte das vias expressas urbanas).
Clique aqui para ver a publicação

O estudo traz uma reflexão muito louca! No século 20 tivemos um processo de construção de vias expressas nas cidades, porque se entendia a necessidade de ter mais espaço para fluir (entenda-se fluxo de carros). Esse modelo legitimimamente americano foi copiado aqui no Brasil, principalmente em São Paulo (vide as Marginais).

Um parênteses: (Tô foliando um livro chamado “A morte e vida das grandes cidades” (Jane Jacobs) que fala justamente de como começou todo esse processo urbanístico que foi vendido como desenvolvimento. Pra quem quer se aprofundar no assunto, leitura obrigatória!)

Hoje, no século 21, estamos no processo inverso. Várias cidades começaram a perceber que não adianta dar mais espaço para os carros que não vai resolver nada. E a própria sociedade está deixando de ficar Acomodada no carro e passando a ficar INcomodada com a situação. Com isso, cada vez mais percebe-se a destruição dessas grandes vias expressas e a sua transformação em um espaço público para convivência.

Um dos casos mais louváveis é do Rio Cheonggyecheon em Seoul, onde se tinha uma espécie de marginal pinheiros com um minhocão e hoje é um incrível parque linear. Vejam a foto do antes e depois:

É uma tendência irreversível, acreditem… Agora a questão é: quando isso vai acontecer aqui em São Paulo e como estamos preparados para isso (para o fato de que perderemos espaço para andar de carro)? Hoje, infelizmente, o prefeito quer votos e a população não quer que mexa no seu espaço “adquirido pelo IPVA”. Mas vejo uma luz no fim do túnel…

Privilégio ou Coragem?

março 28, 2012

O privilégio

Ir de bicicleta pro trabalho traz umas histórias curiosas… Outro dia chego no trabalho e sou recebido no bicicletário do trabalho por um novo segurança. Antes mesmo de um bom dia ele me diz apontando pra minha bike: “esse é o melhor veículo pra São Paulo, hein?!” Daí puxamos maior papo, ele praticamente fez um monólogo de que só não vem de bicicleta porque mora muito longe, e que o metrô naquele dia tava todo parado, e o trânsito pior ainda. Me mostrou até um vídeo no celular assustador do tumulto que aconteceu no metrô!

Saí de lá intrigado com o papo do segurança. Em nenhum momento ele destacou que bicicleta é perigoso em São Paulo, que eu deveria tomar cuidado com assaltos, sequestros e sei lá qual outra modalidade do tipo, e que deveria repensar o uso da bicicleta. Nesses dias é raro sair de um papo novo sem ter que mostrar os argumentos que estamos cansados de falar todos os dias, que existe uma lei que dá o direito de andar de bicicleta na rua, de que capacete não é obrigatório, de que ciclista tem que ocupar a faixa, e que existem vias que não só as marginais (ô nome sugestivo, hein?) e as 23 de maio’s… Nada disso incomodou o segurança, apenas o entendimento de que BICICLETA = LIBERDADE = PRIVILÉGIO!

A coragem

Subo para o escritório e sou recebido com bom dias e no meio disso uma pergunta de um funcionário de cargo alto: “Você veio de bike hoje??????” (e bota interrogação nessa pergunta!). Naturalmente disse que sim. Na sequência vem as perguntas dos ‘mas…’. Mas não é perigoso? Mas e na chuva? Mas e a noite? Mas e o trânsito? Como a língua tá calejada com tantos argumentos, já tava pedindo truco, mas aí vem a frase que parece que a pessoa ignorou tudo o que você falou: “você é muito corajoso…”. O que responder depois disso? Parei o papo e segui em diante com o trabalho.

 

Com a sequência dos episódios que tive nesse dia sai com uma reflexão que estou carregando até hoje: por que o segurança me entendeu sem eu ter que falar um “a” e o executivo bem-sucedido não me entendeu depois de tantos argumentos? No fim, a melhor conclusão que tiro disso tudo é que você faz a cidade que você quiser. Se quiser ter medo e viver nas bolhas da vida, boa sorte. Eu sigo em frente de peito estufado pensando: “como eu sou privilegiado nessa paulicéia desvairada!”

 

E aí, qual a liberdade que você quer?


Choques de respeito e desrespeito na cidade

agosto 10, 2011

Aparentemente as pessoas estão progredindo de um ponto de acômodo para outro de incômodo com relação aos problemas da cidade. E com isso cobrarem e exigirem respeito. Um ótimo exercício para vivenciar essa transição é caminhando ou pedalando pela cidade.

PRIMEIRO EPISÓDIO

Em uma dessas caminhadas, nós estavamos saindo da nossa vila fechada em um lindo dia de Sábado e, como o usual, estava cheio de carros estacionados, principalmente de pessoas que trabalharam ou vão nos restaurantes do entorno e usam nossa vila como estacionamento, inclusive em cima das calçadas!! Sempre nos incomodamos com isso, mas por sermos moradores novos não queriamos “causar”.

Até que, neste dia, quando estavamos já na saída da vila, vimos um aviso no parabrisa de um dos carros…

"AQUI NÃO É ESTACIONAMENTO! Seu carro já fica aqui vários dias! Ele será riscado, batido, etc. NÃO COLOQUE MAIS AQUI!"
“AQUI NÃO É ESTACIONAMENTO! Seu carro já fica aqui vários dias! Ele será riscado, batido, etc. NÃO COLOQUE MAIS AQUI!”

Mas não é que os moradores (em sua grande parte idosos) decidiram se rebelar?!?! Uma placa ameaçadora como essa com certeza espantou muitos motoristas que ocupavam inutilmente as ruas e calçadas da vila e achavam isso normal. Por mais que seja mínimo, já deu pra perceber uma diferença… Pelo menos na calçada onde ficava esse carro…

 
SEGUNDO EPISÓDIO
 
Continuando a vivência nas ruas da cidade, paramos para tomar um café da tarde na Rua João Cachoeira e bem ao lado tinha aqueles bares que colocam mesas na calçada. Geralmente vemos aqueles folgados ocuparem quase todo o espaço da calçada, sem pensar nas pessoas (principalmente cadeirantes) que estão ali passando. E não é que neste bar vimos uma placa diferente?…
"SENHORES CLIENTES, favor respeitar a passagem de pedestres"

"SENHORES CLIENTES, favor respeitar a passagem de pedestres"

São coisas simples como estas que parecem fazer parte de um começo de mudança de cultura em cidades como São Paulo. É parar de pensar no individual e no privado, e começar a respeitar o coletivo, o bem comum. É transgredir de uma cidade muito bem adjetivada por Chico Whitaker como “Lucrópolis” para uma Cidade Para Pessoas! Pegue estes dois casos como exemplo e seja um agente de mudança no seu dia a dia. Faça parte desta história!


Abordagem finíssima

julho 15, 2011

Até hoje muita gente vem conversar comigo sobre o dia em que eu fiquei furiosa no trânsito de São Paulo. Já recebi muitos “Parabéns” e teve até quem disse que se inspirou no meu ato. Não sei se isso é um elogio! Mas, estes dias tenho adotado uma abordagem para repreender os motoristas pra lá de fina e tem dado muito certo!

Um exemplo: Ontem um carro passou por mim na Rua dos Pinheiros buzinando e me xingando ensandecidamente. Muito educada, pedalei tranquilamente até o motorista, obviamente, parado no primeiro semáforo. Cheguei toda meiga e perguntei:

“Algum problema com a ciclista?!”

“Problema nenhum, mas você não pode circular nas vias dos carros” (!)

“Aí que você se engana, É LEI, a bicicletas podem e devem compartilhar a via com os veículos”

(ele surpreso) “Eu dirijo há mais de 10 anos e nunca ouvi falar dessa lei”

(eu ainda calma, calma) “Poxa, e você teve que estudar o Código de Trânsito antes de dirigir, né?!”

(ele ficou sem graça)

(eu ainda bemmm calma) “Olha só, vou te dar um presente” – saquei um adesivo incrível que a prefeitura de São Paulo fez escrito “Ciclista na via – é lei – dê a preferência”.

Entreguei, o cara agradeceu, me pediu desculpas e disse que realmente não sabia dessa lei. Eu desejei bom dia e falei “agora vê se para de buzinar pra ciclista, pois assusta!”.

Nunca me senti tão fina na minha vida! E aliviada. Pois não precisei de nenhum recurso agressivo para intimidar ou ensinar esse motorista mal orientado. Pois no fundo no fundo eles são ignorantes mesmos e cabe a nós, ciclistas, mais do que fazer uma cidade melhor, educar um pouquinho essa galera estressada no trânsito.


Adestramento de motoristas

junho 19, 2011

Desde fevereiro temos um cachorro figuraça em nossa casa. Como ele é grandinho e o nosso quintal é pequeno, adotamos o hábito de passear com ele todas as manhãs. Assim, ele gasta mais energia e não fica aprontando várias dentro de casa!

Nessas andanças diárias com o Nick, aproveitamos para adestrá-lo. Ensiná-lo coisas básicas como sentar, andar ao nosso lado, não ficar afobado, não brigar com os outros cachorros… O João ainda aprendeu vário truques com “O Encantador de Cães” e vira e mexe aplicamos eles no Nick! Um deles é tentar não repreender o cachorro falando o nome dele, pois assim ele entende que o nome dele está associado ao comportamento ruim. O certo é fazer alguns barulhinhos que ele entenda que estamos dando um bronca nele. São coisas do tipo, “eeeiii”, “chiiiiuuuu”, “ooowwww”… e tem funcionado.

Mas, não é que dia desses me vi fazendo os mesmos sons que faço para repreender o nosso cachorro para chamar a atenção dos motoristas?! E o pior… funciona! É muito engraçado. Se eu vejo um carro passando muito próximo de mim, invadindo a faixa de pedestres, tentando avançar no vermelho, saindo com tudo da garagem… basta fazer um “””eeeeiiii”, “ooowwwww”, “chiiiiiii”… e eles param na hora de fazer a lambança!

Fiquei impressionada! As primeiras vezes fiz os sons naturalmente, já acostumada a repreender um animal dessa forma (e porque não dizer que motoristas inconsequentes não são animais, né?!), e quando vi que funcionou, me acostumei! Recentemente a minha buzina quebrou e ainda nem senti falta dela. Os barulhinhos adestradores e, em alguns casos, gritos estridentes para os mais desatentos, tem funcionado muito bem! Isto me faz imaginar que, assim como os cachorros, muitos motoristas da cidade de São Paulo precisam passar por um verdadeiro processo de adestramento. Já que as auto escolas não têm feito isso, que façamos nós mesmos então!