Quem são os seres humanos?

Cidade lotada, caótica, trânsito parado, pessoas estressadas, doentes mal amadas. É assim que enxergo São Paulo quando estou no trânsito. As pessoas estão infelizes. Pior, elas são vítimas de alguma doença que a cura nem é tão difícil, mas depende apenas delas. Mas entre todas essas mazelas da vida-louca-e-doentia da cidade de São Paulo a pior delas para mim é a invasão física, o assédio.

Sei que já abordei esse assunto aqui no blog, mas o assédio no trânsito continua me incomodando… e muito. Estou com medo de perder a cabeça outra vez e, numa próxima, quebrar de verdade o retrovisor ou a cara de alguém.

Nos últimos dias tenho ouvido (e lido) muitos relatos de amigas ciclistas vítimas de assédio no trânsito. Aliás, o pior dos assédios, a invasão física e moral de uma passada de mão. Já não sei contar quantas amigas minhas já foram vítimas de motoqueiros e suas “mão bobas” que ops… deslizam entre a bunda e o selim da menina ciclista. Eu mesma já fui vítima desse tipo de agressão e a minha reação foi… chorar. Chorar de tristeza, nojo e raiva.

Fico indignada à falta de humanidade que beira uma pessoa que consegue estender a sua mão para assediar uma estranha. Isso é invasão, é crime, é falta do mais simples respeito. Penso comigo se quem faz isso não tem mulher, filha, mãe e se não pensam nelas na mesma situação. Certamente não. Aliás, olho para esse trânsito maluco e penso “as pessoas estão sozinhas” e, provavelmente, por isso, não pensam em ninguém.

Tenho um amigo que é participante ativo em uma ONG de proteção a cachorros abandonados e vítimas de maus tratos. Já vi muita gente comentar “ahhhh, mas porque você não gasta essa energia ajudando pessoas necessitadas”… e a resposta dele é ótima: “porque eu já não acredito mais nos seres humanos”.

Eu tô chegando quase lá. Nesses momentos que eu vejo o que há de mais baixo e ralé em um ser humano, eu penso e repenso se vale mesmo a pena acreditar na humanidade, se vale a pena ter esperança em um dia ver a cidade mais bonita, mais integrada, mais… humana. Afinal, quem são os seres humanos? Pois o que vejo nas ruas de São Paulo não me remetem muito ao que tenho como conceito de Humanidade.

Ainda bem que eu pedalo. Pedalar é o que me faz ter uma pontinha de esperança e enxergar alguma coisa bela no meio disso tudo. Foi pedalando que conheci as pessoas mais seres humanas que já vi na cidade de São Paulo e é pedalando que eu acredito que alguma coisa dá para mudar por aqui. É difícil, mas dá!

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10 Responses to Quem são os seres humanos?

  1. Tânia disse:

    Isso nunca aconteceu comigo, talvez pq eu seja gordinha….heheheh
    brincadeiras a parte… nunca aconteceu mesmo, e acho que teria a mesma reação: choraria.
    pois aconteceu comigo qdo eu ainda era adolescente e estava andando, veja bem, andando pela calçada…
    isso só pode ser coisa de homem mesmo, porque mulher não faz esse tipo de coisa. É mesmo lamentável ler esse texto, e espero que isso nunca mais aconteça contigo e com nenhuma outra mulher.
    abraços, Tânia.

  2. Claudio Br disse:

    Já é tão raro encontrar uma mulher pedalando na cidade (que não seja para passear) e respondemos dessa forma. É muito triste.

    Quando vejo uma mulher pedalando fico muito feliz, a minha reação não é passar a mão, é outra, é dar um abraço, claro que me seguro, não tem como ela saber que é só carinho e alegria :)

  3. Roberto Luz disse:

    Aqui em Brasília não sei de assédio às mulheres que andam de bike,mas o efeito-demonstração no Brasil é veloz e logo, logo chegará aqui.
    Se possível, memorize ou fotografe a placa da moto e entre com uma ação na delegacia de defesa das mulheres.Distribua o nº o da placa/vídeo às emissoras de TV, aos clubes de bike, de corredores de rua e o “cara” da mão suja( e mente também) vai se esconder em casa por muito tempo.

  4. Mauro disse:

    Parabéns pelo texto. Meus pêsames pela experiência vivida e relatada. Culpamos o “trânsito” mas, como você mesma disse, a culpa é das pessoas inertes nas jaulas de suas mentes doentias. Não vivo sem minha camela (bicicleta no dialeto brasiliense). Bjo e abraço, sem tirar casquinha, é claro. :)

  5. Diego disse:

    A falta de respeito dos “motorizados” vai muito além disso. Ontem mesmo estava pedalando numa estrada aqui da região, dessas que ligam a sitios e bairros rurais, e a uma cachoeira aqui da cidade, e em dois casos, dois babacas, em casos diferentes e carros diferentes, fizeram a questão de dar um berro do meu lado, sendo que em um deles levei um baita susto. Depois que volta pra casa com retrovisor e parabrisa estourado, não sabe o porque. Como no meu caso era na estrada, sem chance de alcançar o ordinário. É uma pena, nosso país está abandonado em cultura, educação, humaninade, e isso talvez leve mais de uma geração para mudarmos. Nossa realidade é apenas a ponta de um iceberg.

  6. Juliana disse:

    Infelizmente isso é uma realidade cruel. E eu ainda acredito no ser humano, mesmo com tantas decepções. Esse post me fez lembrar do Ensaio sobre a cegueira. Saramago tem razão.
    beijos

  7. Federica Giovanna Fochesato - kika disse:

    Não perca a esperança nãooooo…. de termos uma CIDADE, um MUNDO melhor. E sim, entendo: VIVA O PEDAL que nos fortalece, nos solidariza e nos aproxima mais e mais do que realmente é HUMANO… mesmo em meio aos tantos caos do trânsito!
    Força e boa semana!

  8. […] cada pedacinho e escrever algumas palavras em solidariedade aos amigos de Porto Alegre. Falar sobre humanidade, esperança, utopia, […]

  9. Carolina La Terza disse:

    isso já foi até assunto de sessão de terapia pra mim..

    Quando vc diz “Penso comigo se quem faz isso não tem mulher, filha, mãe e se não pensam nelas na mesma situação”, acho que posso responder que “NÃO!”. Quem faz isso não pensa nelas, porque sua referência de mãe, de mulher, provavelmente é uma referência totalmente distorcida de feminino.

    Tenho pena de quem faz isso, talvez até mais do que ódio (lógico que falando agora, pq nas vezes em que aconteceu comigo, na hora, só o que eu senti foi ódio mesmo).

  10. Ludmilla disse:

    Ai, Evelyna! Não é fácil, né?

    Mas, por favor, não deixe de acreditar na humanidade. Não sei se você sabe disso, mas você é uma das poucas pessoas, que por seu exemplo e ideais me ajuda a acreditar nela e em um mundo melhor.

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