Pau de Arara moderno

 

Pôr do sol no rio São Francisco

Meu avô, Francisco Araripe, nasceu em uma pequena cidadezinha da Bahia, na região de Sobradinho, próximo ao rio São Francisco. Muitas vezes ouvi ele contar que para se chegar na terra natal dele é preciso viajar por muitas horas em um pau de arara – um caminhão que acomoda na carroceria algumas tábuas que servem de assento para os passageiros. Uma lona faz as vezes de teto, para proteger os viajantes do sol.

Ainda criança me pegava imaginando a cena, muitas pessoas sentadas, apertadas uma ao lado da outra, na caçamba do caminhão. Que loucura! Pois é, os paus de arara ainda existem aqui no Nordeste, mas em menor quantidade. Até agora só vi um que se encaixa na descrição sempre feita pelo meu avô. Eles devem estar desaparecendo por uma razão óbvia chamada LOTAÇÃO.

Vans (que aqui todo mundo chama da Besta, independente do fabricante) transportam todos os dias milhares de pessoas pelo nordeste. Elas costumam cobrar o mesmo preço ou mais barato do que os ônibus, que circulam em menor quantidade e demoram muito mais, já que param o tempo todo. Até aí, OK! Elas estão organizadas em cooperativas, regularizadas, autorizadas, tudo certinho. O problema é que uma van que deveria transportar 15 pessoas, carrega muito mais que isso. E eu pude sentir na pele essa emocionante experiência.

Viajei para a pequena cidade histórica de Penedo, onde o estado de Alagoas começou e às margens do rio São Francisco, o mesmo rio que corre pertinho da cidade que o meu vô Araripe nasceu. Deixei a Germana em Maceió, porque era uma viagem de 160 km e eu não tinha muito tempo para ir pedalando. Fui de ônibus rodoviário, normal. A viagem demorou, algumas pessoas viajaram por algum tempo em pé, e depois de três horas eis que desci bem em frente ao Velho Chico.

Sempre tive vontade de conhecer este rio. Além de toda a importância dele para o Brasil, sempre senti algo familiar nele. Talvez pela origem do meu avô, que coincidentemente – ou não – leva o mesmo nome. E o rio é realmente lindo. Em Penedo há mirantes por toda parte para que as pessoas possam admirar o São Francisco. Mas, basta conversar com os moradores locais para saber que ele já foi muito mais alto e cheio de vida. Os nativos olham triste para o imenso rio que hoje está barrado em seis represas e ainda aguarda o término de uma transposição para correr por outras bandas do Nordeste que não integram o seu leito natural.

De Penedo fui à Piaçabuçu para conhecer a foz do rio, um cenário bonito pra caramba. Praias com imensas dunas, as lagoas que o rio formou no meio da areia, coqueiros esquecidos em alguns pontos e o mar. Fiquei tão admirada que pensei: “quero conhecer mais desse rio”. Pesquisando, vi que os cânions que se formam ao longo do Velho Chico, entre os estados de Alagoas, Sergipe e Bahia, não eram muito longe dali. Planejei, planejei, planejei e decidi ir conhecê-los. Mas, qual seria a melhor opção para se chegar até eles? Adivinhem! LOTAÇÃO!

Os cânions estavam a uma distância de 230 km de Penedo. Primeiro, tive que pegar uma lotação até Arapiraca, a 70 km dali. O carro que foi feito para 15 passageiro tinha 30, com certeza. Os assentos para três pessoas eram ocupados por quatro. Muitos foram em pé, inclusive mulheres com crianças que choravam desesperadamente por causa do aperto. Foi uma hora e meia de angústia até eu voltar a respirar em Arapiraca. Lá, eu tinha que descobrir de onde saia uma outra lotação, agora com destino à Piranhas, cidade alagoana mais próxima dos cânions. Eu sabia que só existia uma e que operava em um único horário, às 11h. Cheguei às 10h. A van só partiu às 12h! Mas, vamos simbora, os cânins do Velho Chico me aguardavam!

No caminho, muitas paradas, muita gente, muitas caixas, sacolas com comida, malas gigantes… viajamos no meio de muita tralha. Depois soube que o motorista aproveita a viagem para Arapiraca e compra muitos produtos, que vão de alimentos a DVDs piratas, para revender na pequeniníssima Piranhas.

Foram 3h30para rodar 154 km. E na entrada da cidade eu ainda tive que pegar um moto táxi que me deixou no Centro Histórico. Ao chegar, depois de toda essa peregrinação, só não caí de cansaço porque ali estava o majestoso rio, ainda mais bonito do que em Penedo. Soma-se a isso uma cidadezinha histórica super conservada, onde Lampião, Maria Bonita e o seu bando foram encontrados, mortos e decapitados. Piranhas tem tanta história interessante que valeu o esforço da viagem em lotação, o pau de arara moderno.

No dia seguinte, enfim, fiz o passeio de barco pelos cânions. Foi muito legal. Nadei nas águas do São Francisco. Fiquei alguns minutos boiando e observando os paredões gigantescos que se formavam em volta. Uma energia deliciosa!

Quando terminei o passeio, peguei um moto táxi correndo, pois dali uma hora e meia passaria um ônibus no trevo da cidade vizinha com destino a Maceió. Do moto táxi, passei para uma lotação, que dessa vez lembrava um pau de arara mesmo. Era uma caminhonete D20 que na caçamba levava três bancos de madeira para acomodar os passageiros. Junto comigo foram pessoas idosas e uma mulher a 15 dias de dar a luz ao seu oitavo filho. Todos tinhas que fazer um certo esforço para “escalar” a caçamba, já que a porta dela não abria!

Da D20, fiquei no trevo de Olho d’Água do Casado, onde passaria o meu ônibus. Ele chegou às 16h45 e eu fiquei feliz porque viajaria em um ônibus grande, com ar condicionada, com poltrona reclinável… tudo perfeito, se não fosse o detalhe que o ônibus levou seis horas para fazer uma viagem de 280 km. Não, as estradas não são ruins. Mas o ônibus para em todas as cidadezinhas do caminho! Atravessei o sertão alagoano, parando a cada 20 km. Deu uma agonia!

Mas, cheguei! Tarde, cansada novamente, com fome – porque na correria fiquei sem almoço – e feliz porque conheci um pedaço tão especial do Velho Chico. Agora, é só arrumar as malas e pegar o avião (rezando para não ter mais problemas com a TAM). Amanhã é dia de desembarcar com a Germana em São Luís do Maranhão, onde mais aventuras nos aguardam. Vamo que vamo.

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2 Responses to Pau de Arara moderno

  1. Ludmilla disse:

    Também nadei no São Francisco! Experiência única!

  2. Joao Silva disse:

    pau de arara moderno

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