A “floresta amazônica” contra pedestres e ciclistas

Ao falar para alguns amigos de São Paulo que vinha para as festas de final de ano para Manaus sempre brincava que ía visitar minha família de índios que moravam em uma ilha cheia de macacos, acompanhado de uma risada irônica. Mas me assustava a reação das pessoas que acreditavam nessa história ou, ao contrário, que não sabiam que Manaus é uma cidade super urbanizada. Aliás, urbanizada e com vários sintomas de uma cidade mal planejada. Por conta da minha família que vive aqui, venho para Manaus desde pequeno, mas foi nesta viagem junto com a Evelyn que pude experimentar um pouco mais desta cidade com outros olhos.

Manaus traz um choque fenomenal entre ambientes artificiais e naturais. Os poucos prédios simbolizam uma cidade espalhada que aparenta ser infinita, mas ao mesmo tempo é possível encontrar parques e bosques que dão a impressão de que está vivendo uma verdadeira sobrevivência na selva. Além disso, em poucos quilômetros se chega a praias desertas e matas nativas, maioria delas por barco.

Após o Natal, em nosso primeiro dia de turismo, deicidimos fazer tudo a pé pela cidade, andando pela região do centro. Saimos às 09h00 e retornamos depois das 19h00. Nessa maratona passamos pelo Teatro Amazonas, Zona Franca, Manaus Moderna (porto), Mercado Municipal, e as principais avenidas da cidade. Almoçamos na boca do porto o tradicional PF de Manaus – arroz, feijão, farinha e peixe.

Após toda essa caminhada pudemos perceber como o pedestre é prejudicado na cidade. As avenidas incentivam a alta velocidade, com poucos semáforos, poucas faixas de pedestres e muitas rotatórias (ou como chamam aqui, “bola”). Isso faz com que o pedestre caminhe o dobro da distância para atravessar uma via. Mas o que mais me assustou mesmo foi a acessibilidade nas ruas. Calçadas minúsculas e subutilizadas, guias com mais de 30 cm de altura, e faixas de pedestres sem guias rebaixadas.

 

Calçada comum nos bairros de Manaus

Calçada comum nos bairros de Manaus

Em uma avenida movimentada a calçada simplesmente acaba

Em uma avenida movimentada a calçada simplesmente acaba

Placa ao lado do semáforo que não faz o mínimo sentido

Placa ao lado do semáforo que não faz o mínimo sentido

Faixa de pedestre modelo em Manaus, com guias que parecem uma muralha para atravessar

Faixa de pedestre modelo em Manaus, com guias que parecem uma muralha para atravessar

As plataformas do ônibus são extremamente altas e, dependendo do lado em que acessar, é quase impossível alcançá-la.

As plataformas do ônibus são extremamente altas e, dependendo do lado em que acessar, é quase impossível alcançá-la.

Cansados da vida de pedestre, no dia seguinte resolvemos fazer alguns passeios mais distantes de bicicleta. A Evelyn já estava com a bike dobrável, a Marronzinha, e achamos uma bicicleta por R$80 na bicicletaria “A Ciclista”. Pessoal bem gente boa e que se comprometeu a comprar a bicicleta de mim de novo quando eu for embora pela metade do preço. Bem mais barato do que alugar! Apelidamos a nova bicicleta de “Manauara”.

Evelyn atrás da Manauara e da Marronzinha na Ponta Negra
Evelyn atrás da Manauara e da Marronzinha na Ponta Negra

No dia de pedalada em Manaus decidimos fazer os parques, que são mais distantes, mas não sabiamos que seria tanto assim. No dia todo só conseguimos ir ao Bosque da Ciência e ao Jardim Botânico. Os manauaras tem uma mania de falar que tudo é longe a pé ou de bicicleta, mesmo quando não é. Por isso ficamos meio discrentes quando falavam que o Jardim Botânico era longe e fomos mesmo assim. Pedalamos por mais de 2 horas pela zona leste da cidade até chegarmos lá. Por fim, não conseguimos fazer quase nada no Jardim porque só podia fazer as trilhas de tênis. Sacanagem…

Entrada do Bosque da Ciência, administrado pelo INPA
Entrada do Bosque da Ciência, administrado pelo INPA
Uma das várias subidas para o Jardim Botânico
Uma das várias subidas para o Jardim Botânico
Constraste entre a floresta amazônica e a urbanização
Constraste entre a floresta amazônica e a urbanização
Placa na principal praça da cidade, evidência de visão da bicicleta como lazer
Placa na principal praça da cidade, evidência de visão da bicicleta como lazer
Única ciclovia da cidade na Ponta Negra, com menos de 5 km
Única ciclovia da cidade na Ponta Negra, com menos de 5 km

Além da pouca infraestrutura para bicicletas, pode-se dizer que pedalar no trânsito em Manaus é tão desgastante quanto pedalar em São Paulo. No geral os motoristas são respeitosos com os ciclistas, mas são desatentos e muitas vezes entram nos cruzamentos sem esperar o ciclista. Nada de diferente de São Paulo se não fossem as avenidas expressas as únicas que conectam as regiões da cidade, impedindo roteiros alternativos para ciclistas.

Por que Manaus pareceu não ser uma cidade para pedestres e ciclistas:

– Calçadas pequenas e sem manutenção
– Poucas faixas de pedestres
– Calçadas em sua maioria sem guias rebaixadas
– Principais avenidas são verdadeiras vias expressas, com veículos em alta velocidade
–  Dificuldade de montar roteiros alternativos de bicicleta por ruas mais calmas (até mesmo para ciclistas experientes da cidade)

Embora uma cidade difícil para estes públicos, há um ar de mudança e esperança em cicloativistas da cidade. A prefeitura parece estar recebendo bem novas ideias e projetos para ciclistas, talvez muito por ser sede da Copa do Mundo de 2014. Sem dúvida é uma cidade cativante, com muitas belezas naturais e que me atraiu para fazer parte da construção da beleza da cidade.

 

Anúncios

3 Responses to A “floresta amazônica” contra pedestres e ciclistas

  1. tt disse:

    JP, também estive em Manaus e em Santarém (PA) por esses tempos e também fiquei de cara com a altura das calçadas e o tamanho das valas entre a pista e a calçada. “Qualquer queda aqui, de bicicleta, pode ser fatal”, pensei. Foi quando atinei para uma possível razão para tanta altura: o tempo das chuvas. É água que não acaba mais, então as calçadas devem se transformar em verdadeiras muralhas que conduzem as águas e impedem que invadam casas e bloqueiem as calçadas. Você vc deve estar percebendo por aí, a Amazônia é complexa.

    • Pois é isso mesmo que me falaram. A “muralha” das calçadas serve para evitar as enchentes nas casas. Aliás, isso que você pensou é fato. A vala é super perigosa para se pedalar.
      Na volta de um passeio pela Estrada da Ponta Negra, a Evelyn caiu exatamente nessa vala. Sorte que estavamos devagar e a avenida não estava movimentada, mas pra acontecer alguma besteira ali é rapidinho!

      Abs,

      JP

  2. Juliana disse:

    Ei Casal feliz
    saudades de vcs!
    Por onde andam manda notícias.
    abraço

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: