Aventuras em Xapuri, a terra de Chico Mendes

 

Casa de Chico Mendes, em Xapuri/AC

No último final de semana fui conhecer a terra de Chico Mendes. Xapuri é uma pequena cidade a 180 km de Rio Branco que se orgulha por ser considerada o berço da luta ambiental na Amazônia. Foi lá que aconteceu grandes movimentações para evitar que as florestas amazônicas, onde vivem seringueiros, ribeirinhos e índios, se tornassem gigantes áreas de pastagem.

Fiz minha reserva para ficar no Pousada Ecológica Seringal Cachoeira, no meio da mata, onde seringueiros vivem em reservas extrativistas e levam os hóspedes para ver in loco a extração do látex da borracha. No meu caso, fui acompanhada pelo Tito Mendes, primo do Chico Mendes, que me contou histórias e mais histórias do período de ativismo ambiental, da época dos empates, quando os chamados povos da floresta se abraçavam às árvores no momento delas serem derrubadas (ou derribadas, como dizem por aqui!). Ele também me levou para conhecer o seringal onde Chico Mendes viveu, antes de morar na cidade, bem pertinho dali. Tito olhou para o terreno, suspirou e disse: “se o meu primo tivesse ficado aqui, ele jamais seria assassinado”.

Mas toda a aventura xapuriense começou para mim ainda em Rio Branco. Haviam me falado que o ônibus para Xapuri saia à 6h da manhã e outro às 6h30. Outra opção era o táxi lotação, muito comum por aqui. O táxi espera lotar o carro com quatro passageiros indo ao mesmo destino e segue viagem. É um pouco mais caro e bem mais rápido, pois o ônibus vai parando a viagem inteira.

Um dia antes da minha ida, falei com um taxista que formava lotação para Xapuri, ele me disse que o movimento estava baixo e estava difícil lotar o táxi, se não lota, quem for tem que pagar o valor cheio! Mas, ele recomendou que eu aparecesse umas 6h30 para ver como estava o “movimento”. Enfim, no sábado cheguei às 6h15 na rodoviária. Para a minha surpresa o ônibus das 6h30 não existia. O próximo só às 13h45. Procurei pelo taxista do dia anterior e nem sinal dele. Por fim, um taxista que estava formando lotação para ir a Brasiléia se ofereceu para me levar, mas cobraria R$50, já que teria que desviar o caminho para me deixar em Xapuri (o ônibus seria R$24 e o táxi lotação que não apareceu seria R$30, se fosse lotado).

Achei um absurdo, mas eu não tinha muitas opções. Paguei os 50 pilas e segui viagem. Cheguei em Xapuri era umas 9h da manhã. Passei pela Pousada Ayshawa, que é parceira do pessoal do Seringal Cachoeira, para ver se eles estavam levando algum grupo para o Seringal, que é afastado e não tem ônibus até lá. Eles não tinham ninguém indo para lá. Me orientaram que a melhor opção era eu tomar um táxi ou moto-táxi para lá. Deixei a minha mochila na pousada e fui visitar a pequena cidade e achar um taxista que me levasse para o Seringal Cachoeira.

Depois de visitar a Casa de Chico Mendes, a Fundação Chico Mendes, o Museu do Seringueiro e observar o encontro do Rio Xapuri com o Rio Acre, fui conversar com os taxistas. Eles queriam cobrar R$100 para me levar até o Seringal. Detalhe: 100 para levar e outros 100 para me buscar no dia seguinte. Impossível. Fui falar com os moto-táxistas, ue cobram R$25 cada trecho. Ou seja, ida e volta ficar R$50. Fiquei indignada, pois achava que tudo seria bem mais barato. Voltei esbravejando para a Ayshawa para pegar a minha mochila e voltar no ponto do moto-táxi, afinal, mais uma vez eu não tinha muita opção.

Mochila nas costas, antes de sair liguei na pousada avisando que estava a caminho, que iria de moto-táxi . Chegaria para o almoço. Desliguei o telefone o rapaz da pousada me aparece empurrando uma bike. Veio uma luz. “Ei, você aluga bicicleta?!!!”. E a resposta foi “ALUGO!!!”.

Sem saber o preço eu já queria alugar. O menino, meio confuso, tentou me convencer do contrário. “É muito longe!”. Mas como eu já sabia que para os acreanos tudo é longe e na verdade não é, perguntei:

“Longe quanto?!”

“20 km”

“Como é o terreno? Muita terra, muitas subidas…”

“Não, são 12 km de asfalto e retas pela Estrada da Borracha, mais 2 km em asfalto pela BR364 e mais 8 km em estrada de terra até o seringal”.

“E essa estrada de terra, tem muita lama?!”

“Não, é terra batida, são 8 km numa reta só”

Aí concluí: “me aluga logo essa bicicleta!”

Paguei R$10 pelo aluguel da bike. Saí feliz da vida em uma bike com quadro de ferro, sem bagageiro, com cinco marchas (mas só três entravam), um selim horrível e um pedivela alto que fazia o meu joelho chegar na testa enquanto eu pedalava! Mas, eu estava feliz. Feliz porque não teria que gastar outra pequena fortuna com taxista e porque eu estava pedalando!

 

Na Estrada da Borracha, trecho de 12 km plano e tranquilo

Os trechos de asfalto foram exatamente como o rapaz falou. 14 km bem plano e tranquilo. Agora, quando cheguei na estrada de terra, aí veio o sufoco. A estrada era daquele chão costela de vaca, que tudo treme, até a sua bochecha. Era um sobe e desce sem fim num calor de 40 graus. Ficava me perguntando de onde esse menino tinha tirado de que a estrada era uma reta só. Sofri pra caramba. Uma hora um casal em uma moto passou por mim. Perguntei se a pousada estava longe e eles só responderam “está bem longe!”. “Mas longe quanto?”, eu perguntei. “Ah, tá bem longe”! E foram embora.

 

Na terra, só sufoco!

Segui pedalando. Mais a frente encontrei outro rapaz de moto. Esse foi mais prático: “faltam 4 km, e agora você vai pedalar no meio da floresta, então vai ficar mais fresco e tem bem menos subidas!”. Ufa, como eu amo informações completas! Mas fiquei encafifada: eu estava mortinha, mega cansada e só tinha pedalado 4 km?! Afinal, se eram 8 km de terra e ainda faltavam 4… Estava decepcionada comigo mesma!

Cheguei na pousada ecológica em duas horas. Todo mundo estava preocupado. Afinal, eu tinha ligado avisando que iria de moto táxi. Mas, virei atração no seringal. Todo mundo que aparecia na pousada perguntava: “você que é a menina que veio de bicicleta?!”. Mas, valeu todo o esforço, suor e economia! A pousada era linda, encravada no meio da floresta. Eu era a única hóspede. Assim que cheguei uma mega mesa com comida caseira e peixe pescado ali mesmo me aguardava. Esqueci rapidinho o esforço. Conversando com as funcionárias da pousada, todas moradoras do seringal, elas me explicaram que, no Acre, quando alguém lhe diz “é uma reta só” quer dizer que você não terá que se preocupar em ter que virar em algum momento à esquerda ou à direita. Mas não quer dizer que não haverá subidas, muitas por sinal!

 

Um super almoço de frente para a mata me esperava para repor as energias!

No dia seguinte, enquanto eu fazia a trilha com o Tito Mendes, ele ainda manifestava a surpresa dele por eu ter pedalado até lá. Aí eu disse “mas eram só 8 km de terra”. E ele me corrige: “Que 8 km menina, são 18 km de estrada de terra. O Seringal está a 32 km da cidade de Xapuri”. Aí caiu a ficha porque o Seringal não chegava nunca!

A volta foi bem mais tranquila. Já conhecia o trajeto, já estava preparada psicologicamente para pedalar 32 km, tinha caminhado na mata, tinha tomado um café da manhã incrível e não estava muito sol. Tudo perfeito! Agora, se um dia vocês forem ao Seringal Cachoeira e falarem que são amigos da menina que foi até lá de bicicleta, eles, certamente vão se lembrar! A aventura foi marcante, para ambos os lados!

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6 Responses to Aventuras em Xapuri, a terra de Chico Mendes

  1. Toshio disse:

    Que aventura!!! Muito legal seu relato!!!

    [ ]s

    Toshio

  2. Arthur disse:

    Andar de bike na floresta amazônica deve ser uma experiência única!

    Boa viagem, aproveite bastante e nos mantenha informados.

  3. Daniel Santini disse:

    Evelyn,

    Eu fiz exatamente essa viagem, fiquei na mesma pousada e passei um perrengue muito parecido. Estava com um fotógrafo, com equipamento pesado nas costas, e não tinhamos como sair do Seringal Cachoeira para ir para uma fábrica estatal de preservativos, visita que motivou toda viagem. Acabamos pegando carona na caçamba de uma picape na chuva e eu lembro até hoje de como a estrada pulava. Imagino você passando por aquela buraqueira toda! Parabéns, guerreira!

    Na volta foi a mesma dificuldade, com taxista que não cumpriu palavra e sumiu e acabamos conseguindo uma carona com o pessoal da fábrica depois de ficar horas esperando.

    Em Xapuri em si, para visitar a casa de um diretor do Ibama pegamos duas bicicletas emprestadas do pessoal do Instituto Chico Mendes e fomos pedalando, o fotógrafo com a câmera na cestinha de uma bicicleta rosa! Foi a melhor solução para a situação (não daria tempo de achar um táxi e era longe demais para ir andando).

    Parabéns pelo pique e pelos ótimos posts sobre a viagem. Quando voltarem, Evelyn e JP, vamos combinar uma pedalada para trocar impressões sobre a viagem em geral e o Acre em especial, ok?

    Um abraço,

    santini

    • Eu também estava com o equipamento de foto na mochila, que estava bem pesada!!!! rs. rs.
      Também passei pela Natex, até arranjei uns preservativos para dar como lembrança do Acre! Hehe

      Vamos marcar o pedal com certeza!!!! Volto no dia 26 de janeiro=)

      Beijos,
      Evelyn

  4. Aldeir Araújo disse:

    Parabéns Evelyn, vocês tem uma determinação que causa muita admiração à todos nós.
    Sou de Xapuri, e é muito interessante ver como as pessoas de outras regiões exergam a nossa cidade.

    Abraço.

  5. Geslaine disse:

    Estou me mudando para Xapuri no começo do ano, você pode me passar o telefone dessa pousada que você ficou? Não conheço ninguém e vou chegar lá com a cara e a coragem, e preciso de um lugar para me instalar até encontrar uma moradia fixa. Desde já agradeço;

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