Germana

Germana foi sonhada e planejada dez meses antes de chegar até mim. Foi assim, em um dia de loucura, cansaço e estresse que comprei do nada uma passagem rumo à Alemanha com o único objetivo de comprar uma bike e fazer uma viagem de bicicleta.

Mês a mês eu planejei, bem mal, mas planejei. Guardava dinheiro aqui, dinheiro ali, fazia uns freelas para guardar mais dinheiro e sonhava acordada, pesquisando sites de bicicletarias alemãs e vendo qual seria a que poderia chamar de minha. Pedi dicas, conversei com muita gente, olhava o meu orçamento e nunca conseguia idealizar completamente a bicicleta que traria para casa.

Os meses passaram bem rápido. No dia 09 do 09 de 2009, enfim, embarquei para Berlim. Cheguei já era noite, custei um pouco para descobrir como chegar ao hostel de ônibus, metrô e uma breve caminhada. Estava cansada. Comi um lanche, vesti o pijama e dormi, sonhando com a bicicleta que iria comprar no dia seguinte.

Dia 10, acordei na hora que deu vontade. Nem quis tomar café da manhã no hostel, assim como também não quis encarar os trens e metrôs super eficientes para se chegar rápido ao centro. Quis andar. Observei a cidade e as pessoas que passavam de bicicleta por ela. Me imaginava em cada uma daquelas magrelas. Me via pedalando bicicletas como aquelas em São Paulo. Uma loucura!

Enquanto não achava a minha, fiquei paquerando as bikes de Berlim

Durante a caminhada ia parando em algumas lojas que vendiam bicicletas ou acessórios para elas, ou os dois! As mais legais eram mais caras do que o meu orçamento planejava, mas sempre saia de alguma loja com dicas para a minha cicloviagem, que começaria três dias depois. É interessante que na Alemanha eles têm vários tipos de bikes. Bike para a cidade, bike para a montanha, bike para corridas, bike para cicloturismo… por isso é bom pesquisar bastante para comprar a bike ideal para o uso que você fará dela.

Continuei andando, andando, tomei um café da manhã gostoso em uma cafeteria para operários de uma construção, andei mais ainda. Paquerei muitas bikes, pesquisei os preços, os componentes, tudo, até que em uma lojinha em um porão na Oranienburger Strasse encontrei uma magrela linda. O preço era interessante, ela era incrível, mas tinha um porém: pagamento só em dinheiro, cash! Putz, aquilo iria levar embora metade da grana que levei em espécie e eu ainda tinha um mês de viagem pela frente.

Resolvi caminhar mais um pouco para pensar. E caminhando, logo mais a frente, entrei na rua Augustrasse e segui caminhando. Ela tem uns casarões super antigos e em alguns funcionam restaurantes ao ar livre nos quintais das casas. São lindos e muito agradáveis. Lá também tem algumas galerias de arte e de uma delas saia um som de piano encantador. Até entrei para usar o banheiro deles e ouvir mais um pouquinho o som delicioso.

Nesse clima “zen” achei a Fahrrad Station que em português significa Estação de Bicicleta. Entrei para fuçar. O dono da loja me atendeu com o melhor inglês que eu já tinha ouvido desde que cheguei. Ele me deu muitas dicas, perguntou quanto eu pretendia gastar, aí me recomendou uma bicicleta que o quadro é fabricação própria deles, linda!, e em um tamanho um pouco mais aceitável para mim, que sou “um tanto quanto pequena para os padrões alemães”, como o próprio dono da loja comentou! Ele ainda sugeriu que eles me medissem, montassem uma bike ali, na hora para eu experimentar. Topei. Mediram meu tamanho, braços e a mão e montaram a bike ali, na hora. Deixei meu passaporte e eles falaram “agora, vá conhecer Berlim de bicicleta e veja se gosta”. Saí sem lenço e sem documento, literalmente, pedalando pelas ruas de Berlim. A sensação era de liberdade, de pertencimento à cidade, era tudo perfeito. Para melhorar, os carros me respeitavam e até o bondinho reduziu a velocidade para passar do meu lado.

Fahrrad Station, a loja onde a Germana nasceu

Rodei, rodei, parei em uma pracinha e voltei para a bicicletaria encantada. Falei “é minha!”. Eles ainda me deram um desconto de 150 Euros para a bike ficar dentro do meu orçamento! Mas também, de quebra comprei os alforjes, a trava, o ciclocomputador, o porta caramanhola, algumas ferramentas, câmara… e ainda ganhei de presente uma camiseta e a caramanhola. Saí de lá feliz da vida e atrasada para encontrar com o João no aeroporto.

Fiz um intermodal bike-metrô-bike e cheguei no aeroporto exatamente no momento em que o João atravessou o portão de desembarque. Fiz um suspense com ele do tipo “adivinha qual é a minha bike?!”, mas havia tantas que seria uma baita sacanagem querer que ele acertasse. E quando ele viu, ficou boquiaberto. Lá estava a Germana estacionada, toda pomposa, metida, recém-nascida em uma bicicletaria numa rua mágica de Berlim.

O João montou a bike dele ali mesmo no aeroporto e pedalamos de volta para o hostel com direito a muitas paradas para cervejas alemãs, muitas voltas perdidas e alguns amigos bêbados engraçados em um bar estranho.

Juntos e com nossas bikes no aeroporto de Berlim

Três dias depois iniciamos uma das viagens mais incríveis de nossas vidas e que tem rendido boas histórias até hoje, exatamente hoje, quando a Germana completa um ano de vida e quase seis mil quilômetros pedalados. Ela é a bicicleta mais comportada que já tive, a menos temperamental e, porque não, a mais sofredora, já que saiu de um país incrível para se usar a bicicleta como meio de transporte e modo de vida e veio parar em uma cidade muito esburacada e, as vezes, não muito amigável para as ciclistas. Mas um dia a gente chega lá, a gente chega a um modelo de cidade, quem sabe, bem parecido ao da cidade onde a Germana nasceu. E no dia que esse momento chegar é com a Germana que eu quero estar pedalando, afinal, ela me ajuda (e muito!) e buscar uma cidade diferente para se viver!

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One Response to Germana

  1. Cleide disse:

    Obrigada, Germana!
    ..que contribui para aliviar o stress da sua dona.
    Parabéns, querida filha… pela sua ousadia, pela sua coragem e determinação.

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