Minha amiga desistiu da bicicleta

Conheci a Jú Reis no carnaval de 2009. Ela estava louca para fazer uma cicloviagem e eu e alguns amigos planejávamos pedalar até Sorocaba.

Trocamos alguns e-mails, foram dicas, incentivos e eis que no dia, hora e local combinado ela apareceu. Toda meiga, doce e ansiosa. E a cicloviagem foi emocionante, pois foi exatamente quando atropelei um carro no acostamento da estrada. Abri o meu queixo e foi a Jú – que é enfermeira – quem me convenceu a ir para o hospital e dar os pontos no queixo machucado.

Passamos o carnaval juntas. Aprendemos a pedalar sem as mãos naquele final de semana, fomos para São Miguel Arcanjo de ônibus e pedalamos até o Parque Carlos Botelho, onde a Jú tomou um banho de bica de lavar a alma, feliz da vida. Ela ainda me ajudou a fazer os curativos e ficou me policiando para não “abusar” demais e acabar abrindo os pontos do queixo.

Olha a Jú lavando a alma em uma bica no Parque Carlos Botelho!

Dessa cicloviagem de carnaval nasceu uma amizade. Eu e a Jú não nos vemos com tanta freqüência, mas sempre que nos encontramos são assuntos muito legais sobre a vida, a profissão, as aventuras, novos projetos e, lógico, a bicicleta. Nesse tempo vi o quanto a Jú se tornou sensível a tudo que acontece ao seu redor. Ela é observadora, delicada e registra tudo em fotos maravilhosas. Tenho certeza que a bicicleta contribuiu muito nessa sensibilidade.

Mas essa semana recebi uma notícia triste: a Jú colocou a bike dela (batizada de La Negra) a venda. Simplesmente desistiu de pedalar! O motivo: ela tem se sentido estressada no trânsito. Disse que se pega muitas vezes brigando, xingando e achando o mundo injusto demais.

Entendo ela. O trânsito é realmente cruel. Aliás, o trânsito tornou as pessoas cruéis. O sentido de humanidade se perde no meio de tantos carros, de tanta pressa. Dói mesmo. Já nem sei contar quantas vezes me vi com vontade de chorar, decepção da raça humana. Outras vezes me peguei com vontade de gritar, bater, xingar, estourar o vidro de um carro e quando olhei, uma criança no banco de trás! O que tem de errado nesse mundo?!!!!

Mas sempre que pensei em perder o controle – e algumas vezes, confesso, até perdi um pouco ao entrar numa discussão – parei pra pensar no preço que a gente paga para humanizar uma cidade. Nós, ciclistas, que usam a bicicleta como meio de transporte, não poluímos, não fazemos barulho, não causamos congestionamentos e, ainda, desejamos – e buscamos – uma cidade pensada para as pessoas, e não os carros. Em troca ganhamos, na maioria das vezes, xingamentos, gritos desesperados, ofensas, buzinas, espinhos em vez de flores. E isso dói.

Mas essa dor é ao mesmo tempo compensada quando encontramos pessoas semelhantes, buscando uma cidade melhor e agindo para isso. É compensada quando sentimos o vento, a garoa, o cheiro de uma árvore e de suas flores. É compensada pela criança que aponta com o dedinho e fala feliz “uma bicicleta!”, é compensada pelos cantinhos maravilhosos que descobrimos pelo caminho com a nossa humana velocidade. E nesses caminhos de espinhos começam a aparecer as flores.

Não é fácil, mas – ainda bem – também não é impossível. Quero continuar pedalando e buscando essa cidade dos sonhos, onde as pessoas sorriem, olham para cima, se cumprimentam, não se odeiam e são felizes. E sinto que estou fazendo isso quando pedalo. Quero um dia, lá na frente, ver meus filhos pedalando livres, felizes, sem rusgas por aí e que eu possa contar para eles que eu, o João e muita gente ajudamos a construir isso. E a Jú Reis eu quero muito, muito mesmo, que faça parte dessa lista de pessoas, que um dia vou contar para os meus filhos, que ajudaram a construir essa cidade mais humana.

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2 Responses to Minha amiga desistiu da bicicleta

  1. Ju Reis disse:

    Oi Elelyn
    Estou alegre e triste!
    Alegre por tudo que a bicicleta me trouxe, as vivências, as amizades, a liberdade, o vento no rosto…
    Triste porque estou com medo de pedalar no trânsito paulistano. Parece que estou entrando em um ring de luta com regras não respeitadas. O que era prazer virou estresse.
    Obrigada pelo carinho!
    Adoro sua amizade :)

    • Jujuzinha! Acho que você precisa de um bike anjo. Para bater papo no caminho e não prestar tanto atenção nas coisas ruins do trânsito! hehe

      Sei que não está fácil… Mas resgata a La Negra para os finais de semana, cicloviagens, feriados… vai?!!!! E tem bicicletada amanhã! Vamos?!!!

      Beijos da Evelyn

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