No meio das lembranças uma queda

Se o meu gosto (ou vicio) por pedalar tivesse alguma influência genética, eu diria que isso veio do meu pai. Ele e minha mãe se casaram muito novos, meu pai tinha 20 anos, nem sabia dirigir e pedalava uma Monareta para ir ao trabalho de Jandira até Alphaville, em Barueri. Meu pai conquistou minha mãe assim, de um jeito simples, sem nenhum “carrão” para impressionar. E creio que foi a chegada rápida do meu irmão e depois a minha que o incentivou a aprender a dirigir, ter habilitação, comprar nosso primeiro fusca e parar de pedalar.

Mais de 25 anos se passaram. Quando eu ainda era pequena, mudamos para o interior e foi lá que aprendia a pedalar, lá que ganhei minha primeira bicicleta e de lá que íamos para a praia onde meu pai pendurava as bikes no carro e pedalava com a gente. Ainda assim, quando vim para São Paulo, surpreendi minha família quando decidi usar a bicicleta como meio de transporte. Os surpreendi mais ainda quando resolvi que a bike também seria minha companheira de viagens e aventuras. Mas, eles se acostumaram. Se acostumaram e me incentivaram.

Apesar dos tombos, das quedas, meus pais preferem sempre guardar as boas histórias que trago comigo e com a bicicleta. Entre estas histórias, meu pai, ele que já teve até que me socorrer no hospital depois de um acidente de bike na estrada, voltou a se lembrar de seus tempos ciclísticos e como a bike tem mais a ver com a vida dele do que com a minha própria.

E as lembranças trouxeram novamente a vontade. Assim que voltei da Alemanha com a minha bike nova, meu pai aceitou ser o “tutor” da minha outra bike, a Serafina, que passou a ficar encostada em casa. No começo ela continuou encostada, num quartinho, lá em Sorocaba. Chegou a murchar o pneu e juntar poeira. Mas, depois de umas bronquinhas, meu pai começou a pedalá-la.

Logo no começo ele já levou um capote. Escorregou na lama que juntara na ciclovia sorocabana após muita chuva. A bike ficou zoada, o freio, o câmbio, tudo ficou bem esquisito e desregulado. Mesmo assim meu pai continuou dando umas voltas nela. Até o dia em que fui pra lá, pedalei nela e fiz uma lista de tudo o que precisava ser concertado para a bike ficar legal. Junto com o “desafio” de arrumar a Serafina sugeri uma cicloviagem para o próximo feriado. Meu pai ficou super animado.

A proposta da cicloviagem era atravessar a Ilha Comprida, Cananéia, Ilha do Cardoso, ida e volta, durante todo o feriado de 9 de Julho. Meu pai correu para arrumar a bike, investiu uma grana, trocou os pneus e ainda fez amizade com alguns ciclistas na bicicletaria e se animou a pedalar com eles. Animador mesmo estava ver a empolgação do meu pai.

Esse final de semana ele buscou a bike na bicicletaria. Na adrenalina de experimentar a bicicleta arrumada para a primeira cicloviagem dele, ele foi logo pedalar. Deu um role pelas ciclovias da cidade e na volta, quase chegando em casa, foi pular a guia e… tombo. Resultado: pontos na testa, ombro e dedo machucados, joelho enfaixado, chateação e cicloviagem do feriado cancelada.

Por mais que meu pai fale que está tudo bem, que ele vai continuar pedalando e que vamos fazer a viagem mais pra frente, sei bem o que um ciclista sente quando se machuca numa queda de bike. Dá uma sensação esquisita, uma tristeza misturada com chateação, um questionamento na cabeça do tipo “como eu poderia ter evitado esse tombo?”…

Mas agora o que eu torço é para que meu pai fique bom logo, que realmente volte a pedalar e que a gente faça essa cicloviagem logo. Se ao me ver pedalando o meu pai já pode relembrar os seus tempos de bicicleta, imagine quando ele fizer a primeira viagem dele em cima de uma magrela?! Passado e presente juntos, certamente, vão proporcionar a ele as melhoras sensações da vida!

Enquanto isso… melhoras aê paizão!

Anúncios

14 Responses to No meio das lembranças uma queda

  1. E aí Sêo Araripe, tudo bem?

    Olha, não fica triste não hein? Cair da bike é normal. A gente cai por um belo motivo, para depois nos levantarmos e continuarmos a pedalar.

    Não desista, logo logo o senhor estará recuperado e irá fazer a cicloviagem com a Evelyna!

    Melhoras!
    Abraço,

  2. Toshio disse:

    Pô seu Araripe,

    Quis fazer freestyle pra impressionar as gatinhas, rs. (brincadeira)

    Tem que fazer igual a filhota, não desistir e andar sem as mãos no dia seguinte e ouvir os tios falando:

    – Nossa, ta toda enfaixada e andando sem as mãos!!!

    abraço

    Toshio

  3. Márcio Campos disse:

    Grande patriarca Araripe.

    Você, como nós, já sabe que toda emoção forte e boa envolve riscos. Voltar a pedalar passada a tenra juventude é saber que pode fazer uma coisa que já fez muito bem. Mas essa memória do ser prodígio nos engana. Claro, ao retomar arriscamos mais do que quem nunca aprendeu, e dá-lhe tombos, colisões, coisas chatas.
    Quando voltei a pedalar aos 25, no primeiro dia já colidi feio contra um retrovisor no meio do corredor dos carros, que vergonha, que falta de intimidade eu senti com minha bike novinha, voltei pra casa decepcionado comigo. Também caí, quebrei um osso da mão. Mas insisti e pedalei quase todos os finais de semana, hoje, aos 42, o guidão é extensão de meus braços, as rodas são minhas pernas e pés, meu tamanho é o de minha bicicleta. Estou de novo muito à vontade sobre ela, e acho que não desço mais agora.

    Então, não aceite uma derrotinha dessas, todo desafio ativa o cérebro, aguça os sentidos, e se reflete nos outros aspectos da vida.

    Quero te ver pedalando, Araripe, vai te preparando. Você vai rir desse seu tombinho.

    abraço do amigo ciclista.

    Márcio Campos

  4. André Pasqualini disse:

    Me lembro do meu maior tombo, estava no Interior em São Miguel Arcanjo, com meu primo, pedalando numa estradinha para até umas cachoeiras no parque Carlos Botelho.

    No caminho uma grande descida, mais de 60 km/h, uma curva muito fechada, pista suja e lá fui eu frear com meu joelho. Estava a quase 20 kms de um hospital, no meio do nada, precisando de ajuda para ser socorrido e só me lembrava do meu pai, que não gostava dessa minha “mania” de bicicleta e mal sabia que eu tinha levado minha bike nessa viagem.

    Chegando em casa, quando meu pai viu meu estado, na mesma hora disse que eu nunca mais andaria de bicicleta. 15 dias após, ainda cheio de curativos, já estava na estrada encarando mais um pedal.

    As coincidências não param por aí, tanto é que alguns anos depois, lá estava eu, na mesma estrada, mostrando para minha amiga Evelyn o ponto exato que eu tinha caído. Mais coincidência é o fato dela, dias antes, ter tentado entrar dentro de um carro parado no acostamento da castelo, pela traseira e com a cabeça. Acidente que obrigou seu pai a ir busca-la de carro no hospital, acidente que não a impediu de realizar um novo pedal dias após.

    Vai na minha, a dor será muito maior se você deixar de realizar essa viagem, daqui a poucos dias você notará que seu corpo não será mais impedimento, a unica coisa que pode te segurar será sua cabeça.

    Cair todo mundo cai nessa vida, mas a grande virtude vem daqueles que se levantam, sacodem a poeira (literalmente no caso dos ciclistas) e seguem a vida. Tenho certeza que com o senhor será igualzinho. Hoje você pode até estar quebrado, mas o que importa é como você estará um dia antes da viagem. Tenho certeza que você irá se surpreender.

    Abraços e melhoras.

    André Pasqualini

  5. vitor m disse:

    keep riding

  6. Aline Cavalcante disse:

    Tio araripeeee!!! nao desanime.. é cair pra levantar!! eu tb ja tomei vaaarios tombinhos, ganhei ralados, pontos e até uns pinos!!! no começo a sensação é de impotencia, tristeza e até vontade de desistir (p/ alguns, inclusive pra mim). Mas quem ja foi contaminado com o virus da bike simplesmente tira a boa lição da queda e bola pra frente..
    e é assim que tem que ser…
    reflexão sobre o acontecido pra tentar evitar o proximo tombo…
    melhore logo!!!!
    beijoooooooo

  7. Paulo Fernando Teixeira disse:

    Araripe, lembre-se daquele samba do Paulo Vanzoline: “Levanta, sacode a poeira e de a volta por cima”…
    Bora pedalar. Não desanime

    Boa recuperação.

  8. Carlos Obamis disse:

    “Seu Araripe”,

    Só posso dizer que quando tive o meu primeiro acidente “grave”, tive que ficar 1 mês de cama e acabei descobrindo apenas uma coisa: Que eu amo andar de bicicleta e nada nesse mundo pode me deixar longe da magrela!

    Força e sebo nas canelas! :) Yes we canzis!
    Abs.
    Obamis

  9. Marcio Tamashiro disse:

    Seu Araripe,

    Força, não vamos desanimar, pois quem sabe andar de bike, já caiu várias vezes ou até já foi atropelado, e ainda assim continua pedalando.

    Não existe nada mais importante para um filho, do que ter o pai pedalando ao seu lado, ainda mais numa cicloviagem. Quem me dera se eu tivesse essa sorte.

    Abrçs.

  10. Wesley Viana disse:

    Seu Araripe,

    Eu quando comecei a pedalar em 2009, a cada dois pedais eu caia um, ou seja, em 50% dos pedais eu caia rs agora caio menos.

    Mesmo assim eu vejo a queda como parte importante do processo, estou sujeito a quedas, levo isso também para minha vida num modo geral.

    Mas sei que depois eu posso levantar e começar tudo de novo. =)

    Força no pedal!

    Abs ..Wezz

  11. Juliano disse:

    o corpo humano é realmente algo que me fascina, você só come um pãozinho e um café de manhã e consegue se locomover com as próprias pernas, o homem tentou construir algo parecido, você precisa de gasolina, óleo, um monte de peças etc. para andar só um pouquinho e quando quebra não se conserta sozinho não é até nisso o corpo do homem é perfeito, somos capazes de nos regenerar sempre, sempre mesmo, rompi vários ligamentos do meu joelho e depois de acho que 2 anos já me sentia novo em folha,,,

    por isso se alguém estiver desanimado aí, me faça um favor e dê um sorrizaço, pq tem uma turma que precisa fazer tatuagem para mostrar que viveu outros se orgulham das cicatrizes.

    :o)

  12. Nataly Gonçalves disse:

    Sr, Araripe tenho certeza que logo logo estará bom e pronto pra tão sonhada ciclo viagem!
    A Evelyn tava tão alegre com essa cicloviagem família que acabou te colocando um olho gordinho…rs..tá batizado!
    Tá famoso, heim? não vejo a hora de conhece-lo!
    bjs

    Naty

  13. matiasmm disse:

    pedalar e cair são ações que andam juntas. O bom é levantar e sentir o vento no rosto de novo. Que isso possa ocorrer logo!

  14. Daniel Santini disse:

    Seu Araripe,

    Escrevo depois de ler as palavras que enviou para a lista pela Evelyn. O senhor é um tremendo exemplo para nós todos.

    Aproveite o tempo de recuperação para ler bastante, deixar o corpo descansar e refletir sobre a vida.

    Saudações e melhoras,

    Santini

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: