Duas Bicicletadas em uma

Cada Bicicletada é uma Bicicletada. É muito difícil voltar para casa com as mesmas sensações a cada última sexta-feira do mês. Tem Bicicletada que você vai embora cheio de alegria, outras tomada por ódio, algumas por indignação, enfim… nenhuma Bicicletada é igual. Isso é fato. Mas na última – a de fevereiro – aconteceu algo interessante: foram duas Bicicletada em uma.

Estivemos lá e pudemos, cada um de seu jeito, ter uma visão diferente da Bicicletada.

Visão da Praça – por Evelyn

Se essa Bicicletada de fevereiro tivesse um nome, para mim seria “Bicicletada das lendas” ou melhor “Bicicletada do reencontro”. Fazia muito tempo que não via tanta gente “das antigas” reunidos na Praça do Ciclista. Pessoas que me acolheram desde o primeiro dia em que apareci ali, naquele mesmo lugar. De repente me vi tomada por uma nostalgia, um sentimento de “velhos tempos”. Aquele papo de praça, sempre aprendendo coisas novas e compartilhando as histórias do dia-a-dia. Foi sensacional!

A hora passava e os assuntos eram muitos para sairem simplesmente pedalando à deriva pela Avenida Paulista. A vontade que dava era virar o Miranda – estátua protetora da Praça do Ciclista – e ficar encravada naquele lugar. A massa crítica gritava, as buzinas de bicicletas soavam e os ciclistas começavam a contornar a Praça, ansiosos por ganhar a cidade, a avenida e seguir em frente na esperança de humanizar o trânsito.

Pela primeira vez eu não quis ir com a massa. Quis ficar ali e ganhei forças ao ver que mais gente compartilhava do mesmo sentimento. Não era momento de pedalar, mas era momento de cuidar dos frutos que ali mesmo foram plantados e regados: as amizades. Me lembrou até uma explicação que tivemos uma vez num dos primeiros Pedal Verde: empolgados para sair plantando árvores por toda a cidade, reclamamos quando o pessoal sugeriu um pedal para cuidarmos das mudas que já havíamos plantado. Poxa, esperamos o mês inteiro para pedalar e plantar pela cidade e vêm algumas pessoas sugerir que não plantemos, apenas cuidemos do que já foi plantado???!!!! Simmmmmm… as plantas – e as amizades – precisam de cuidados!

Poderíamos naquela noite ter saído pelas ruas na tentativa de plantar esperanças e alegrias por onde as bicicletas passassem – e acredito que isso aconteceu independente de termos ido com a massa. Mas aquele era o momento de cuidarmos de nós, das nossas amizades e das histórias que construimos desde o dia em que aparecemos ali, na Praça do Ciclista.

A estada na Praça ainda rendeu boas entrevistas e histórias cotidianas para o documentário de uma ciclista chamada Helena, que está se formando em Rádio e TV e resolveu gravar um vídeo com depoimentos de pessoas que usam a bike como meio de transporte em São Paulo. Muita coisa para refletir, muitos momentos para se compartilhar e muita coisa ainda para se viver.

Esse mês tem mais Bicicletada. Última sexta-feira. É impossível saber como ela será, assim como, provavelmente, é impossível ela ser como foi no mês que passou. Só sei que essa última, deu animo, forças e alegrias suficientes para mais um mês encarando essa cidade, para mais uma vez eu lembrar os deliciosos frutos que rendeu esse plantio de amizades na Praça do Ciclista desde que apareci por lá pela primeira vez, em junho de 2008.

Visão da Massa – por JP

Ultimamente tenho percebido, mais do que nunca na minha vivência em São Paulo, a construção de uma comunidade ciclista crescente nessa paulicéia desvairada. Recebo quase todo dia, no meu trabalho principalmente, perguntas sobre bicicleta, desde qual bike comprar até qual passeio participar. E nesta última pergunta eu sempre respondo: BICICLETADA!

E é a pura verdade. Para quem nunca pedalou em São Paulo, tem medo ou simplesmente está enferrujado. a Bicicletada é o melhor local para começar sua “carreira ciclística”. Foi dessa forma que, enquanto a Evelyn “cuidou das plantas”, eu fui plantar algumas sementes. Sucesso! Trouxe duas colegas de trabalho para a Bicicletada que, após o lindo passeio pelo centro de São Paulo, ficaram deslumbradas com o movimento.

Saí bastante atrasado da Praça em busca da Massa. Liguei para alguns colegas, consegui as coordenadas e pedalei. De repente me deparo com uma galera que ocupava as duas faixas do viaduto da Rua Paraíso. Acompanhei o fluxo até a Rua Vergueiro. Me surpreendi novamente com a quantidade de gente e, quando já não imaginava onde caber mais ciclistas, vejo o início da Massa passando no outro sentido da Rua Vergueiro! Confesso que desci a Avenida Liberdade toda comentando com os colegas ao lado: “A Bicicletada tá bombando hoje!!”

Quando já imaginava estar satisfeito com minhas pedaladas rumo ao centro no meio daquele mar de bicicletas, eis que a Bicicletada também me surpreende pela qualidade… Encontro lá uma amizade antiga, o Antônio, que conhecemos no Caminho da Fé em julho de 2009 e nos acompanhou a pé quando viu nossa situação precária (Evelyn com o braço sangrando e eu com a bike arrebentada). Dali até a Praça da Sé foram pedaladas a base de prosas e relembranças daquela viagem.

A Bicicletada no Centro sempre tem uma magia, uma experiência muio simbólica para mostrar a beleza desconhecida e mal aproveitada de São Paulo. Nunca tinha passado por tantos pontos maravilhosos em uma só Bicicletada: Praça da Sé, Pátio do Colégio, Ladeira Porto Geral, Estação da Luz e Parque da Luz. Fico imaginando como seria participar de tudo isso se fosse minha primeira Bicicletada.

Foto: LSM

Chegando na Rua Augusta percebi que estavamos chegando ao fim. Deu gostinho de “quero mais”, de querer pedalar a madrugada toda – detalhe: eu e Evelyn íamos pedalando até Sorocaba no dia seguinte. Mas felizmente nas Bicicletadas já está se tornando comum alguns colegas irem para algum restaurante/boteco amigo do ciclista após a pedalada. Me despedi do pessoal que ficou na Praça do Ciclista e fomos em um pequeno grupo para uma pizzaria que costumamos ir com a galera. Chegando lá, me assusto por não ver nenhuma bicicleta na porta. Logo logo, chego na entrada da pizzaria e me surpreendo novamente! O dono do restaurante já está tão acostumado com nossa visita mensal que deixou colocar todas as bicicletas dentro do restaurante! Que cena espetacular! Comer e beber em um museu de bicicletas! Sem dúvida um ótimo jeito de terminar mais uma Bicicletada. Quero dizer… Duas Bicicletadas em uma!

Dá pra perceber que a pizzaria é amiga do ciclista?


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8 Responses to Duas Bicicletadas em uma

  1. Federica Giovanna Fochesato - Kika disse:

    Evelyn e JP,
    Salve!
    ótimos relatos e puxa… nessa eu estava aqui, na de SJCampos! Não adianta: a BICICLETADA da Paulicéia é muito mágica mesmo! Sempre me sinto acolhida, protegida e emocionada com a FORÇA DA MASSA! E para mim, que tem certa dificuldade de conceber “SAMPA” (passo boa parte do tempo aí), é nas BICICLETADAS que toda coragem de MANTER-ME uma ciclista eterna se reacende… êta cidade grande!
    Boa semana procês!
    Kikavaidemagrela

  2. foi sensacional mesmo.. me arrepiei com os relatos! a historia da pizzaria só me faz ter mais esperança no ser humano e na cidade de SP! e que venham mais e mais

  3. Érica Bettiol disse:

    …E essa foi a minha Primeira Bicicletada. É incrivel a sensação de integração com a cidade e inesquecível o acolhimento da “Grande Família Bicicletada”. =)

  4. Bruno Gola disse:

    caro JP, compartilhei da sua surpresa e felicidade ao ver as bicicletas dentro da pizzaria maia.

    =D

  5. Márcio Campos disse:

    Oi, Evelyn, belo conto real o seu e do JP.

    Eu fui um dos que não saí, e não saio da Praça faz três bicicletadas, exatamente porque há muito comecei a sentir falta da prosa, lembro bem quando entrei em 2007 que o grande barato era sentar ali e trocar impressões sobre a vida, o passeio era mesmo só o álibi para se encontrar.
    E nisso foi mesmo um encontro das antigas e dos antigos, diria…

    Sair para quem quer sair, ficar e reavivar vínculos com pessoas e com a praça, bicicletada é assim, cada um encontra a sua ali, ou inventa.

    Abraços e beijos

    Márcio Campos

  6. Jp e Evelyn, lindo o relato de voces. A bicicletada esta crescendo e com ela a opcao pacifica e humana de utilizacao da bicicleta como meio de transporte nas cidades. Sempre acreditei na bicicleta com um dos meios de fomentacao para a mudanca que nossa sociedade esta precisando, isto e, a mudanca do paradigma que hoje nos destroi. E com a bicicletada, minhas crencas sao reforcadas. Obrigado pelo relato e pela convivencia. Na proxima bicicletada estarei la, inclusive na pizzaria. abracos

  7. Willian Cruz disse:

    Po, passa aí o endereço da pizzaria amiga do ciclista! Merece um merchan!

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